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autor 1: PixOESIA. Por antiprojeto zerohum
ou mais em "entrada proibida!". Link: http://www.flickr.com/photos/64888254@N00/314898837/ Escrito por (°°) às 20h59 []
autor 2: A Atriz e a Beata: Beatriz, de Chico Buarque e Beatrice, de Dante Alighieri.
Por Carina Morgado
1 Uma homenagem de um grande poeta a outro, além da elevação da linguagem a um patamar vertiginoso, causa, aos que tal homenagem lêem, inquietude. Diante das interseções entre personagens como Beatrice, de Dante Alighieri, e Beatriz, de Chico Buarque, podem-se notar semelhanças e contrastes que permitem um rico estudo comparativo. No texto que, presente, se desdobra, procura-se analisar em que pontos as duas mulheres se tocam, se parecem, se igualam. Para tanto, é interessante recorrer, inclusive, a traços biográficos dos respectivos autores. Chico Buarque, apesar de ter recebido o pedido de uma música para uma personagem equilibrista (do balé O Grande Circo Místico, de Jorge de Lima, 1938), acabou por mesclar os papéis de atriz, artista de circo e mulher ideal numa só. Esta última, enquanto paráfrase da grande amada de Dante Alighieri (que fora reverenciada em suas obras mais famosas – Vida Nova e A Divina Comédia), traz uma série de alusões à mulher que enriqueceu a obra deste grande escritor da Idade Média. A Beatrice de Dante é conhecida como alvo do Amor Cortês, onde a aproximação carnal é recalcada. Assim, ela é reverenciada como uma santa pelo amor deste homem, que traduz tal sentimento fervorosamente em sua literatura. Por ter morrido aos 25 anos, Beatrice deixou, na lembrança do pobre homem, a sua imagem jovial, o que o impulsionou a atribuir-lhe uma aura divinal, além de suas infinitas qualidades de caráter. Beatrice também é a personagem, em A Divina Comédia, que proporciona a Dante uma viagem pelos três cenários do pós-morte. Ela tem esse poder por se encontrar no último círculo do céu – onde vivem, eternamente, as pessoas mais puras e belas. Tais cenários – Inferno, Purgatório e Paraíso – são como uma experiência que deveria ajudar Dante a conduzir sua própria vida com mais prudência e, desta forma, conduzi-lo à própria salvação. Na letra da canção Beatriz de Chico Buarque, 1982, já o primeiro verso, espantosamente, remete à contemplação do inalcançável: “Olha“, como se algo ao longe fosse do incomum ao incrível, pedindo atenção. Fosse a atriz, alguém que consegue se desfazer de suas próprias expressões, mascarar ou abrir mão de si pelo outro; fosse a artista de circo – no caso, a equilibrista –, aquela que descreve saltos inacreditáveis no ar como um anjo ou pássaro; fosse a mulher divinizada de Dante, num lapso de tangibilidade aos olhos mundanos, a nos saber do Sétimo Céu. A paráfrase à Divina Comédia invade até mesmo a melodia da canção, onde a sua nota mais grave cai na palavra "chão" e a mais aguda, na palavra "céu". Sendo ela de larga extensão vocal, com intervalos melódicos e modulações, torna-se difícil interpretá-la. O cantor deveria ter o poder de viajar do ponto mais alto (agudo) ao ponto mais baixo (grave), assim como Dante o fez em sua viagem. Escrito por (°°) às 20h59 []
2 Para falar das semelhanças e diferenças principais entre as Beatrizes, deve-se partir da constatação inevitável: o questionamento veemente de uma delas. Bem se nota que Beatrice é incontestável, mais ainda na sua santidade em vida eterna do que em sua nobre beatice anterior. Portanto, Dante não ousaria questioná-la: fazê-lo seria desafiar o próprio Deus – o que seria um grande pecado. Já Buarque, o que faz mais intensamente é indagar sobre que visão é aquela, “Será que ela é moça / Será que ela é triste / Será que é o contrário / Será que é pintura / O rosto da atriz...”, questões que começam por discutir a veracidade do que ele está vendo – se é apenas pintura aquela beleza ou será que tudo o que ele vê está totalmente às avessas em relação à realidade. Antes, Beatrice era detentora da realidade, a guia de Dante pela vida eterna no Paraíso. Agora, pergunta-se se Beatriz seria mesmo real em toda a sua perfeição ou apenas devaneio de um poeta obcecado. As indagações continuam, ainda, em relação ao espaço: onde é que esse anjo mora, essa figura de espetáculo? Que lugar ou não-lugar ela habita? “Se ela dança no sétimo céu / Se ela acredita que é outro país /... / Será que é cenário / A casa da atriz / Se ela mora num arranha-céu / E se as paredes são feitas de giz / E se ela chora num quarto de hotel...” Dante tentara traduzir o indescritível do Paraíso. Mas será mesmo, este lugar sonhado, descritível, dizível? É de se duvidar. Dando à letra da canção uma atenção mais detalhada, vêem-se quantas referências são feitas à obra medieval e a Beatrice, a mulher stilnovista e inalcançável. Em “Sim, me leva para sempre, Beatriz / Me ensina a não andar com os pés no chão”, por exemplo, é ressaltada justamente a figura da mulher conduzindo o homem à plenitude amorosa e espiritual. Já em “Diz se é perigoso a gente ser feliz”, é o Amor Cortês que clama alto pelo platonismo e a irrealização. Como último exemplo de interseção entre as obras, pode-se destacar um trecho que talvez cause opiniões divergentes, mas certamente chama atenção pela sonoridade: “E se os pagantes exigirem bis”. Esse verso, que traz a palavra “pagantes”, insinua sonoramente a palavra “pagãos”, o que abre espaço para a interpretação de que os reles pagãos e coitados que estão no Inferno ou no Purgatório, reles pecadores ou até mesmo os ainda vivos no firmamento já tiveram a oportunidade de assistir ao espetáculo, a visão divinal que é Beatriz – e há, aqui, clara fusão das duas numa só. Mas um momento de plenitude não basta. Eles querem mais, o “bis”; querem ser Beatriz, amar Beatriz, por tempo e contemplação indeterminados; apontando, é claro, para a eternidade. Escrito por (°°) às 20h58 []
Prefácio pra histórias infantis.Por Paulo Vitor Grossi
São como a realidade, e realidade deve ser passada como ela vem à cabeça, sendo repassada. Tratando crianças como adultos, ou adultos como eles são, aqui – levando o meu criar, o campo de imagens necessário à imaginação –, em história infantis-não-só-pra-um-tipo. Trato vocês, leitores, como seres humanos iguais, não como inferiores ou de classes diferentes; em outras palavras: dou poderes a quem não se espera, trato de igual para igual, pois não é só trazendo esperança no final das histórias que vou ser fiel ao estilo ou um bom autor. Os clássicos são o que são: clássicos. Bom, como já disse: essas infantis (aqui guardadas) histórias são como uma realidade, só estou tentando mostrá-las ao meu ver e no nosso tempo. Se tem animais, se tem gente, pra mim é tudo igual. E se há miséria humana, morte, loucura estática, ou mesmo relaxamento, tudo bem, é real e sincero. Antigamente o que não tinha direito à fala eram os infantes, as crianças. Agora, o poder infantil é explorado; na liberdade de ser pequeno, na falta de controle regulamento-horário-movimento, na exploração do tempo de realização... mas, a quem digo isso, vocês, leitores – digo o que quer mesmo é ser natural, sem os horários determinados, ou longe do controle dos adultos que não estão prontos a entender –, podem estar em lugar noutro, igual e igual, para quem lê pra quem ou para quem somente lê ou somente escuta. A brincadeira, o viver e o saber não devem ter hora programada, certo? Então, sejam o tempo de ser e sejam a realização, a aventura; sejam o tempo integral. Tudo hoje em dia deve ser levado como fantasia – e não é mentira, é a mentira apenas uma fantasia agradável. Nunca ter pressa, sempre prazer. O tempo todo brincando, cansando, se divertindo, sendo ser... Encontrem a si mesmos, senhoras e senhores quase adultos e adultos. Ter paciência e consideração com o outro, que tem outra história tão diferente da sua; relevância com o próximo e expectativa para com o seu ritmo, é como a solicitude, em outras palavras, cuidar do outro e fazê-lo encontrar-se consigo. Leiam com algo como “amor”. Praticidade, intuição, magia e encenação fazem parte do fantástico assumido como o natural... A verdade deve ser descoberta! Sei que são rápidas e quebradas as narrativas. Mas não fiquem chateados, é só uma brincadeira onde muitas coisas são possíveis. Leiam desinteressados, atentos quando lhes convir. Atenciosamente, o autor. Escrito por (°°) às 20h56 []
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