Por Raphael Fejão

 

Lá estou eu. O dia é igual, a semana também, e isso vai continuar até meus cabelos caírem. As pessoas a minha volta são sangue-sugas, fofoqueiras, não valem seus salários e talvez eu também não. O sol não vai nascer sorrindo amanhã neném, eu sei, eu sei. Compare minha vida a de um camelo no deserto, compare minha vida com a de um etíope com o futuro incerto. Tanto faz, a comida está na mesa, a televisão está na sala, vomitando modismos e regras. O deserto me puxa, a areia mais movediça me engole, enquanto todos progridem falsamente ao meu redor. Razão, certeza, pudor, todas palavras sem razão. Que ano é esse, que dia hoje, o que importa? No nosso nascimento ouvimos a marcha fúnebre e nem nos damos conta, nem nossos pais, nem nossos avós. Por falar em pais, eu não falo mais com o meu e você? Tanto faz.... é isso que eles chamam de evolução, é por isso que um homem que quer a vitória tem que passar ? Talvez eu não agüente...... são duas e pouco da manhã e tenho que acordar daqui a pouco para tirar pó de livros que ninguém lê, para ser escravo de quem não merece..... batam palmas para mim, dêem risada, o sol vai nascer amanhã de um jeito ou de outro e eu dou tanta importância a ele, quanto ele dá a mim..............argh, o que é isso? Explosão de hormônios?? Adolescência? Espero daqui a alguns anos descobrir, se eu ainda estiver aqui........meu copo acabou e a lua continua a me fitar com um sorriso amarelo, pois sabe que o dia já está se preparando para chegar......

 

raphacoimbra@ig.com.br

Escrito por (°°) às 00h16


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A história do bêbado e do poeta.

Por Paulo Vitor Grossi

 

A história que segue é a de um estúpido e conformado bêbado que está prestes a morrer e a de um pedófilo galanteador poeta desconhecido de meia tigela. Ambos têm algo em comum? Talvez o fato de serem seres desprezíveis e que estão não só à margem da sociedade, como à margem do tido como normal.

O bêbado é um cara pobre que gasta tudo o que arrecada da boa vontade “acolhedora católica politicamente correta” alheia em cachaça e cigarros, ficando zonzo de tanto vagabundear sem definição e não ter reação contra a sua condição podre – “Lá vem o semimorto!”, é o que dizem. Todos sabem que uma hora ele morrerá, tanto que já nem anda, o moribundo; somente se arrasta pela sua casa de concreto exposto cedida gentilmente pelos moradores da rua... Fede tanto e já começam a definhar suas esperanças vãs de ter a cachaça boa de cada dia, além de ter certeza de que virará a fumaça que injeta nos pulmões carbonizados a qualquer momento; todos da rua já comentam e se perguntam “por quê?”.

Já o poeta pedófilo, esse é um tipo talvez até tido como típico. Ele faz parte da galera que se diz intelectual, alternativa, marginal, mas que prefere o anonimato – tudo mentira! –, contudo são mesmo uns fracassados que na primeira oportunidade “solta o verbo” para “chocar” as pessoas; e ainda por cima – olha só, não tenho a intenção de atingir uma classe a que respeito – é um homossexual meio contido que se revela na presença de jovens... jovens cheios do que ele não viveu, cheios do que ele quer sugar de volta. Coitado, todos da rua já comentam e se perguntam “por quê?”.

O que eu posso dizer mais? Bom... as histórias do bêbado e do poeta são bem parecidas... Ainda precisa dizer que eles já estão mortos?!

 

Conto extraído do livro Luz verde no quarto escuro e ninguém lê – livro de gaveta!

pvgno@hotmail.com

Escrito por (°°) às 00h48


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Luzes, leite e um pouco de música.

Por Marie Nepomuceno

 

Tudo parece calmo

Mas é só lembrar você e minha alma se tortura

Mistura de medo e alegria

Algumas poucas palavras vão surgindo, enquanto o lápis desliza pelo papel.

Sinto uma paz, e ao mesmo tempo um tormento.

Desejo que você esteja aqui

O frio é meu companheiro

Sono, já não tenho mais.

Como te dizer o que eu sinto,

Você não está livre.

Meus olhos fixos em sua foto

Encontro um conforto em teu sorriso

Perdida nessa noite que não quer passar

Leio versos, deslizo minha mão pelo cabelo...

Seu cheiro invade meu quarto,

E sua voz pousa suave em meus ouvidos.

5 da manhã.

Lágrimas e rabiscos.

Vejo-te perdido no deserto do meu coração,

Só me diga onde te encontrar, que eu movo o mundo para estar lá.

Deito-me acordada.

Esperando que a luz do sol entre pela janela,

E me traga o calor que você, ainda, não pode me dar.

Café e jornais,

Ando pela casa...

Uma canção me paralisa

E mais uma vez lembro você...

 

garotaparafina@yahoo.com.br

Escrito por (°°) às 00h37


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Tirando as carapaças.

Por Elisandro Rodrigues

 

1

Já falei tantas vezes

Do verde nos teus olhos

Todos os sentimentos me tocam a alma

Alegria ou tristeza

Se espalhando no campo, no canto, no gesto

No sonho, na vida

Mas agora é o balanço

Essa dança nos toma

Esse som nos abraça, meu amor (você tem a mim)

(A festa – Maria Rita)

 

Hoje me acordei com uma historinha, que diz o seguinte: Havia um homem, que morava em um vilarejo distante, neste vilarejo todas as pessoas viviam em harmonia, este homem era amado por todos e por todas as pessoas, pois vivia ajudando, vivia ensinando coisas diferentes e mostrando a beleza da música e poesia. Mas certo dia ele se apaixonou por uma linda mulher de sua comunidade. Essa paixão foi intensa, e recíproca. Ele nunca havia experimentado um amor tão verdadeiro, ele que falava, que cantava este amor, era a primeira vez que sentia esse amor. Os dois se amaram muito, viveram com muito ardor esta paixão, mas foi por pouco tempo, pois logo ela o deixou, e ele, desanimado e perdido, deixou a felicidade. Começou outro momento em sua vida, um momento de pura tristeza. Já não cantava a beleza. Vivia em dias de cinza. Deixou de lado tudo o que tinha, o que fazia parte de seu ser: a alegria, a felicidade e a poesia. Tratou de aprender com a tristeza armou-se, se fechou de tudo e de todos. Tornou a andar coberto de armaduras e escudos para se proteger das pessoas, e principalmente do amor.

Mas eis que uma forasteira aparece na vila e em sua vida. Ela tentou se aproximar dele, mas de nada bastou, pois ele estava fechado, resguardado. A forasteira começou a ficar triste, mas continuou sua vida. Com a certeza de que aquele homem era diferente, e que dentro dele existia a magia da felicidade, mas ela não podia ficar presa a ele, se ele a não quisesse. Mesmo se a quisesse ela sabia que as pessoas são livres como os pássaros que voltam quando sentem saudades de um lugar.

Um dia uma menina, que era uma das que mais se alegrava com a cantoria e as histórias deste homem, chegou perto deste dele e falou no jeito simples de criança: “Sabe por que as pessoas colocam armaduras para irem para as guerras? Por que elas querem imitar os caranguejos e as tartarugas, mas estes não precisam ir para a guerra. Esta carapaça que eles tem é para proteger de outras coisas, não de si mesmos, por isso que eles às vezes saem sem as carapaças, ou andam de cabeça para fora, coisa que os homens não fazem, eles se escondem de si mesmos, pois a guerra não é necessária, nem o se esconder de si mesmo. A guerra é feita para aprisionar os homens dentro de suas armaduras. Que pena que exista guerra, e que pena que as pessoas se escondem de si e dos outros. Sabe, um dia ainda vou descobrir por que as pessoas são assim”. Ela falou isso, nada mais perguntou, só olhou para o homem, sorrio e o abraçou forte. Saio a cantarolar e brincar com as flores do caminho.

Escrito por (°°) às 23h26


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2

O homem ficou perplexo com o dizer da menina, como podia uma criança falar coisas assim. Alevantou-se e foi para casa. Entrou em casa pegou seu violão e foi a primeira janela e porta aberta cantar. Começou a contar estorias para os passantes. Foi caminhando assim até encontrar a forasteira, que havia decidido ficar naquele lugar, estava ela a planta flores quando viu chegar saltitante e com um sorriso nos lábios e a cantar:

 

“As curvas no caminho, meus olhos tão distantes,

Eu quero te mostrar os lugares que encontrei

Como o céu pode mudar de cor quando encontra o mar

 

Um sonho no horizonte, uma estrela na manhã

De repente a vida pode ser uma viagem

E o mundo todo vai caber nesta canção

 

Vou te pegar na sua casa, deixa tudo arrumado

Vou te levar comigo pra longe

Tanta coisa nos espera, me espera na janela

Vou te levar comigo

 

Eu quero te contar as histórias que ouvi

E nas diferenças vou te encontrar

O amor vai sempre ser amor em qualquer lugar

 

Vou te pegar na sua casa, deixa tudo arrumado

Vou te levar comigo pra longe

Tanta coisa nos espera, me espera na janela

Vou te levar comigo”

(Vou te levar comigo – Biquini Cavadão)

 

E assim é a história. De um homem que desaprendeu a arte de amar e ser feliz e que encontrou nos olhos de uma criança, de uma mulher apaixonada, e nos seus próprios olhos ao se olhar e perceber que a felicidade está contida em nós. Como aprendemos a nos proteger, aprendemos também a viver livre, a doar-se, a amar.

 

Elisandro Rodrigues

Voltando e desaprendendo a tirar as carapaças...

Outubro de 2006

 

enopj@hotmail.com

www.caminhodaloucura.blogspot.com

Escrito por (°°) às 23h25


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