Como sobrevivi a uma clínica de estética.

Por Silvia Naylor

 

Nunca fui daquele tipo de mulher ligada em academias, dietas mirabolantes ou simpatias pra emagrecer. Sou do tipo roliço, sempre fui e só de vez em quando isso me incomoda a ponto de fazer algo a respeito. E foi num desses rompantes que fui fazer um desses tratamentos estéticos.

 

Há alguns anos atrás estava naquela linha preciso ficar gostosa, mas detesto fazer ginástica e não posso viver sem meu amado chocolate. Foi quando li um anúncio de umas dessas clínicas e seus tratamentos mirabolantes. Nessa época, morava em Belo Horizonte, tinha um salário bem legal, o que me permitiu escolher o pacote Gold Mega Jumbo Plus Desengordater. Era o top, com todos os tratamentos combinados pra otimizar a coisa toda.

Beleza! Ratas da academia morram de malhar que euzinha aqui estarei no ponto em apenas um mês e meio. E sem levantar um pesinho! E sem fechar a boca! Hahahahahahaha!!!!

Engraçado, a clinica só tinha gravuras de Botero espalhadas pelas salas...

 

Em poucas palavras, os tais tratamentos eram assim:

 

Máquina de drenagem linfática - Manja aquele negócio que colocam no braço pra tirar a pressão e que aperta pra caramba? Agora tente imaginar um inteiro, pelo corpo todo, do pescoço aos tornozelos. Aquilo vai apertando, apertando e apertando e quando você está a ponto de pedir socorro, a máquina começa a soltar o ar bem devagar. Detalhe, em 15 minutos de aperta e solta, minha bexiga estava a ponto de bala. Agora, como poderia sair da mesa onde estava deitada e ir ao banheiro embalada a vácuo por aquela bóia gigante?

 

Ultra-som - Você fica de biquíni, aliás, em todos esses tratamentos ficamos assim, numa posição meio que de quatro, em frente a uma mulher que você nunca viu na vida. Primeiro passa um gel e depois aquele troço com forma de desodorante roll on ligado na máquina, passando pra cima e pra baixo das coxas e bunda. Não dói, mas é meio ridículo.

 

Eletrochoques - Só serviu pra uma coisa. Se algum dia precisar usar aquela máquina que dá choques pra problemas cardíacos, estarei acostumada. Mole!

Eles colocam umas faixas com eletrodos nos braços, barriga, quadril e coxa. Da primeira vez, a sensação é de que acabou de sair do corredor da morte e está preste a dar seu último suspiro antes de morrer eletrocutado. Fica faltando só aparecer o padre pra extrema unção.

Fora o medo que dá daquela máquina surtar e começar a te fritar.

 

Bandagens frias - Pra mim é o Hours Concours de todos! Depois da sessão de choque fui levada pra essa sala que mais parecia saída de algum filme B chamado "Ataque das múmias congeladas de Tutankamon!”  Toda azulejada, o que já faz ficar mais frio ainda, com cheiro de cânfora com eucalipto e um monte de mulheres enroladas em bandagens tiritando loucamente. Era a visão do inferno Antártico.

Depois de passar o gel gelado, te enrolam numas bandagens molhadas e você fica uns 20, 25 minutos em pé porque não pode encostar em nada, petrificada de frio e se xingando por não resistir ao pecado da gula. O negócio é absolutamente, enlouquecidamente congelante! Em casa, três horas depois ainda estava morrendo de frio enrolada num cobertor. E me sentindo miserável.

 

Termogel ou algo parecido -Outra vez lá vem um gel, só que agora é pra esquentar. Você fica enrolada numa espécie de cobertor elétrico com uma temperatura bem alta. Só não queima a pele porque colocamos uma calça própria pra proteção. A sensação deve ser a mesma que o frango sente ao entrar no forno. Imagino que o emagrecimento deva vir da desidratação que o suor causa...

 

Bom, confesso que não consegui acabar a série e o resultado foram 3 quilos e alguns centímetros a menos, o que não foi de todo mal. Com duração de poucos meses, porque depois de passar por tudo isso e ainda encarar uma dieta seria demais!

 

www.sisanay.multiply.com

sizanay@yahoo.com.br

Escrito por (°°) às 15h10


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Escrito por (°°) às 00h28


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Escrito por (°°) às 00h44


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Tela em branco.
Por Gisela Gold

Parece que ainda não enxergou que mito é coisa de grego. Não cansou. Os poemas ainda eram para ela. Ela que não era ela. Porque ele não deixava. Era apaixonado por alguém que não era ela. Mas um mito. Um castelo de areia: frágil como uma foto de um objeto não identificado. Não levava a mulher pra noite, mas pro museu, como um bibelô que não pode ser tocado, um mimo, uma obra de arte apenas para ser degustada a distância pelos olhos e olhe lá. O encontro ganhava traje de visita turística. Como estrangeiro admirando a mulata com a língua de fora. E quem se lixa praquela barba mal feita, seu hálito de birita, seu cheiro de cigarro, sua blusa toda aberta com aquela barriga branquela aparecendo.
Realmente a grande atração era ela. Colocava-se como eterno coadjuvante quando o script dizia que era ele o ator principal. Aparar a barba, chupar um drops, malhar pra que se o objeto de desejo não era ele. Então era ela quem tinha que ter prazer, assim dizia a cartilha da baixa-estima que decorou desde todo sempre.
Um belo dia, ouviu da então  musa que a mesma queria também ter o direito de investiga-lo, de saber como agrada-lo, de dar-lhe prazer, de dar-lhe um mimo, de fazer seu prato predileto, de ter seu homem bem cuidado.
Silêncio.
Ele não sabia muito bem  o que gostava de comer, afinal, beliscava o que trazia pra ela. Não sabia também por onde deveria começar a tirar aquela barba intocada que já beirava o mau gosto, e já lhe fazia a cara de um pagador de promessa. E o prazer? Acostumara-se a ter prazer bloqueando seus buracos com cerveja estupidamente gelada. E bota estúpida nisso.
Ela falou que precisava admirar o quadro também. Ele não sabia que cores usar. Ela sugeriu uma tela em branco. Como a vida quando a gente quer mudar.
Ele aceitou. Parece que vendem tintas frescas por aí. O fornecedor é quentíssimo e só tem o contato quem resolve cuidar de si. Nunca é tarde pra sair do museu e  freqüentar um salão de beleza. Ao invés de olhar pra musa, agora se permitia ver o por do sol com ela ao lado. Ao lado.

giselagold@terra.com.br / http://giselagold.wordpress.com

Escrito por (°°) às 10h12


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