Sinfonia da Delicadeza.
Por Gisela Gold
Alfabeto a gente aprende na escola. As quatro operações também. Hábitos, bons modos, caráter, a gente tem aula em casa.
Delicadeza... ou se tem, ou não. Não há manual, módulo preparatório, curso à distância, nem professor particular.
Ninguém aprende a fazer o que não se tem que fazer obrigatoriamente. Ao contrário do polêmico voto obrigatório, a gente não tem que, mas se formos delicados, a vida troca o cordial aperto de mão pelo beijo na boca e todo mundo sai mais feliz.
Se faltarem dois reais na conta, você pode evitar um barraco, pagar por alguém que não tenha dinheiro ou não tenha trocado e evitar uma discussão desnecessária. Pode , mas não é obrigado.
Se a troca de amor já acabou e alguém ainda protagoniza um monólogo, amando a sós e sem o controle que a vida exige, pode-se trocar a defesa do desprezo ou do afastamento, pela poesia de um novo encontro , de uma nova casa na praia da amizade, que será construída em doses homeopáticas. Troca-se o batido silêncio e desprezo, pelo novo diálogo. Evita-se sim o beijo na boca, mas nunca um olhar de bem querer. Muda-se o disco de forma criativa. O poema e a rosa recebidos viram motivos de exaltação dos predicados do amante como um bom escritor, como um amigo que vale a pena ser apresentado a novas
pessoas, como alguém que precisa investir mais em seu talento.
Se um amigo tiver um enjôo e se fizer necessário um repouso, interessante deixar o filme tão desejado de lado, agenda-lo para o dia seguinte e transformar o programa em repouso com pipoca e dvd.
Se um estranho nos encantar com seu som, seu texto, sua arte, podemos divulgá-lo aos amigos sem receber um tostão, pelo simples prazer de partilhar algo que nos emocionou e dar chance do moço ficar mais feliz com o que faz.
Se um mendigo está morrendo de fome do seu lado e seu estômago não vai dar conta do prato inteiro, você não precisa, mas pode fazer uma quentinha da metade e dividir com ele. Não se salva o mundo, mas uma esquina terrestre.
Tomara que um dia possamos sair da linguagem do “tem que”, para o “eu quero, eu posso”. Tomara que um dia a delicadeza deixe de ser um dialeto para travestir-se de linguagem universal.
Esse texto é uma homenagem a três "delicados": Deborah Geller, que largou uma semi-final do Brasil para fazer canja a uma amiga;ao Tarcisio Cavalcante que nunca me viu e construiu um site pra mim com meu blábláblá (http://giselagold.wordpress.com); e ao Leandro Coelho,
que mostrou meu texto ao meu ídolo Manoel Carlos.
ps: dica - A Alma Imoral, baseado no livro homônimo de Nilton Bonder, na interpretação delicada e comovente de Clarice Niskier- Espaço Sesc de Teatro, em Copacabana. Pra quem não conhece nada do bom e velho Judaismo... um prato cheio.
ps: dica - A secretártia de Borges, livro de estréia de Lucia Bettencourt acompanhado de um bolo de laranja quentinho na Livraria Argumento (www.livrariaargumento.com.br). Impossível deixar de ler e de comer.
giselagold@terra.com.br
Escrito por (°°) às 03h36