Chutando nossas Bundas.

Por Louis Alien

 

Eu estava sentado numa mesa de bar, numa dessas noites de sexta feira,e você sabe como a Lapa tem ficado cheia de gente nos últimos meses.Cresci na Lapa e naquele bar, assim por dizer, freqüentava aquele local já há alguns anos. Gostava da decoração,na qual as paredes de azulejo, embora limpa, parecessem sempre meio suja, os salgadinhos com cara de uma semana, que você comia e não passava mal (ou passava, que diferença faz?) e sempre havia uma alternativa mais barata em termos de bebida.

 O público que freqüentava o bar também era interessante, e éramos todos parecidos em termos de gostos (já que íamos todos ao mesmo lugar). Geralmente eram dali mesmo, das redondezas, uns ou outros vinham de outros bairros procurando diversão na Lapa, e acabavam parando ali no bar, que não era tão badalado anteriormente. Mas nesta sexta-feira havia algo diferente no bar. As pessoas não eram mais as mesmas, o bar não era mais o mesmo, estava terrivelmente lotado, diferente, e isso me deixou meio triste.

 Tinham reformado o bar, aberto um espaço pra caber mais gente, e mesmo assim estava tudo lotado de gente jovem, universitária, bem vestida, alegre e de classe média-alta, que são bem diferentes do pessoal do centro que freqüentava o bar anteriormente. Os vencedores, os populares e sempre cheios de amigos bebendo de seus copos e garrafas. Resumindo: O bar tinha perdido a cara de boteco, de pé-sujo que tinha. Sempre fui apaixonado por boteco, e antes mesmo de inventarem essa moda de cultuar os botecos de azulejos, cerveja barata, cachaça e ovo colorido rosa. Pé-sujo. Isso o que aquele bar tinha sido, e não era mais.

 Isso me fez pensar que há grandes injustiças na vida, porque morávamos ali perto, e estávamos acostumados com nossos pés-sujos,os bebuns freqüentadores, eventuais visitantes e a badalação saudável, que não supervalorizava nossa vizinhança, elevando até o preço da dose de cachaça a níveis ultrajantes. Somos pobres e temos já poucas alternativas de diversão, porque não dispomos de dinheiro para isso, e ainda vêm gente de fora, gente rica, que tem grana e quer mais, transformando nossos pés-sujos em bares refinados, ou quase isso, cujos preços se elevam, a clientela se modifica, então as igrejas evangélicas compram nossos bares e cinemas populares, e nos deixam sem alternativa alguma.

 Esse negócio de dinheiro tem me aborrecido muito, e sentado ali no bar, observando o movimento incessante, as pessoas passando, com seus copos cheios de cerveja, que nunca ficavam vazios, seus petiscos em larga escala, tudo se resume a isso: dinheiro. Estão "valorizando" a área, porque querem ganhar mais dinheiro. E se você não tem dinheiro você é um merda, é ignorado e desprezado por eles. Quem não tem dinheiro é esquecido e ostracizado.

 

É ISSO QUE ESTÁ ACONTECENDO. Você tem alguma dúvida? Então venha visitar nossa renovada e refinada Lapa, antes que sejamos expulsos de nossas próprias casas.

 

alien.louis@gmail.com

Escrito por (°°) às 12h55


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1995: aquela velhice.

Por Paulo Vitor Grossi

 

a senhora ou o senhor (...) abria o jornal todas as vezes pelas 7 da manhã, religiosamente; tomava o café – pouco açúcar –, olhava pela janela e via a rua gritando. Era o seu despertar. Alimentava-se de ar no café da manhã, que reaproveitava no jantar. No almoço, ia até a esquina procurar algo barato e rápido. Na rádio tocava bossa. Sim, já estava definhando, bem à moda MPB.

chega uma carta – mais uma amigo(a) se foi. Pensa: “E ele(a) já foi rock n’ roll...”. “Olhe à minha volta, carteiro: cortinas, mofo, bigodes, pelancas e cadeiras; pêlo de gato, gota de chuva, crucifixo de 1920 e calças jeans de 1989; louça de uma semana, lençol aconchegante, foto da banda de 1968, pente com cabelo de 1950; cafeteira preta, janela presa com fita isolante, caderno de poesias de 1963, medalha de 1944, discos de 1965 a 1979 na prateleira, livros de 1959 e 1974 etc”. O carteiro fica quieto, diz ‘até’ e vai embora.

outros dias se passam.

“o que te sirvo em bandeja? Não tenho petiscos, meu visitante”.

“oi, Nadinha. Como vão os estudos, Invisível?”.

outras situações que não existem na realidade.

“hei, pêlo de gato de novo! Troque o sapato! Hei, conheço esse paletó!”. E alguém singular diz algo estranho: “Vim tirar seu retrato, meu amigo, você se foi”.

 

parte integrante do livreto ““influência “du róqui””. Para adquirir, peça ao autor: pvgno2@gmail.com

Escrito por (°°) às 01h37


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