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Fim – jun/2006. Por Viviane Mag Olhava a parede nua. Tinha tirado o quadro do lugar e colocado embaixo do braço. Ao bater a porta, tudo estaria acabado, dizia a si mesma. Ficaria para traz não somente uma casa, mas um passado, uma vida... sua vida. Não compreendia como pôde acabar assim. Aquele lugar não lhe dizia nada e lhe dizia tudo ao mesmo tempo. No local do quadro, ficou uma marca. A marca era o antes. O resto da parede, os vários depois. Olhava aquele que um dia foi seu lugar, e via somente um vazio igual ao seu coração: oco. Engraçado, como duas criaturas que eram tão ligadas tornam-se tão estranhas de uma hora para outra. O paradoxo do amor é o seu término. Todas as juras são negadas, e grandes momentos esquecidos, como noticia de jornal, que no outro dia já não serve para nada, coisa descartável. Era melhor não demorar mais. Finalmente fechou a porta. Foi deixando tudo: músicas, livros, plantas, fotografias, dias, noites, palavras, todas essas lembranças soltas...tudo. Era o certo? Não sabia, mas sabia que não tinha mais como continuar. Chegando à calçada, luz. Foi bom sentir um feixe de sol, quente, batendo em seu rosto, como se a acordasse para o mundo. Deu os primeiros passos fora de casa, como uma criança que dá os primeiro passos sozinha. Um misto de medo e ansiedade a dominou. Continuou andando e olhou para trás, tal qual as crianças que aprendem a andar – olham para os pais como se pedissem instruções. Da janela do apartamento, ninguém a olhava, somente a própria janela parecia lhe dirigir um último adeus, e parecia tão triste, agora. Engraçado, como é fácil reconhecer uma casa vazia. Sentiu uma quentura no rosto, que não era o sol. A quentura foi descendo pela bochecha até tocar o canto da boca. Melhor não olhar! Virou-se pra frente e então, e viu, meio embaçados, carros passando continuamente, pessoas andando, conversando... Velhos, crianças voltando da escola, cachorro vira-lata fuçando o lixo... E o sol, que brilhava manso, como todo sol de inverno, e parecia lhe esperar. Respirou fundo e continuou andando, com o quadro embaixo do braço e as malas nas mãos. O mundo não parou. Ninguém parou pra vê-la partir e nem ela própria o queria. O mundo não parou e nunca pararia, nem ela pararia. Fez sinal para um táxi, entrou batendo a porta e, por fim, deixou tudo pra traz, para sempre. Escrito por (°°) às 12h00 []
Com um Ar de Inevitabilidade. Por Louis Alien
Resolvi sair pra passear lá no fundo. Eis que estava tudo nublado e confuso, e eu não conseguia caminhar muito. Sempre esbarrava em algum obstáculo, ou tropeçava e caia, acertando o chão com um barulho pesado. Ah, a gravidade. Grave. Idade. Então resolvi ficar sentado, mesmo que meus joelhos doessem pra cacete e o sangue escorresse sobre meus olhos. Tudo difuso, mesclado enevoado. E eu não via nada além de um palmo adiante do meu nariz, que, a propósito, também sangrava. Ai ai. Tédio. Que dia é hoje? Sexta? Sábado? Quinta? Tanto faz, estou envelhecendo sentado aqui e ainda não fiz nada de importante. Essa espera me mata. Então, é aqui que tudo termina? Ou começa? Expresso da meia-noite, paradas ao meio-dia. Gosto metálico na boca, minha garganta anestesiada e eu sinto saudades dessa anestesia temporária.Mas é isso aí, temporária. Odores, cores, visões e contatos que não acontecem mais e minha memória sensorial fica brincando comigo. Me prega umas peças e eu fico aqui revoltado, impotente. Que fazer? Que ser? Que pensar? Sempre aquelas mesmas velhas perguntas, não é mesmo, velho amigo, velho inimigo? Pois bem, agora que tudo segue sua ordem natural... Espere aí! Não há ordem natural! Está tudo errado! Quem é você? Porque fala assim comigo? Ah, deixe de bobagens, não me venha com essa história velha. Não cola, sinceramente. Deixa disso e faça alguma coisa. LEVANTE! Ah, não posso, minhas pernas doem pra cacete... Minhas costas, minha cabeça, o corpo todo dói e lateja. Ferve. Mal posso mexer meu pescoço, que o meu cérebro se comporta como um chocalho e eu sinto vontade de morrer. Engraçado, essa vontade me é estranhamente familiar. Há algo espreitando, uma sombra com um ar de inevitabilidade. Esses dias estão muito enevoados ao meu redor. Sempre humor inconstante e cansaço inevitável. Tédio tédio tédio. Onde foi parar aquele meu remédio? Escrito por (°°) às 02h55 []
ÂMAGO. Por Livia Brazil Ergueu-se do sofá sem saber o que fazer. Olhou para os lados. Viu sua imagem refletida no imenso espelho erguido na parede esquerda da sala. Percebeu seus olhos cor de tristeza, sua pele sem vida, expressão sem calor. Tocou nas profundezas de suas emoções e decidiu que deveria mudar. Não sabia como.
Pegou sua maior bolsa, para caber todas as coisas novas que encontraria pelo caminho, e saiu sem saber pra onde. Caminhou pelas ruas carregada de vontades. Admirou cada detalhe. Cada listra, cada horizonte, cada sujeira. Tudo era surpresa, e a deixava boquiaberta. Continuou seu caminho, sem rumo, debaixo da luz obscura do sol. Tentou parar, mas algo a proibia. Se sentia cansada, acabada de tanto procurar, mas não desistia. A cada nova esquina, cada novo céu, aprendia algo. E estava aberta a tudo. Se sentiu desprender dos rancores, dos amores. Até que sentiu-se vazia. Não queria mais andar. Voltou pelo mesmo caminho que foi, mesmo não encontrando saídas. Entrou no elevador, recostando-se em suas paredes, inconformada. Viu o número 2 e abriu a porta, e depois outra. Deu de cara com o espelho enorme erguido do lado esquerdo da parede. Observou seus sentidos. Olhos molhados.Jogou a bolsa, pesada, pro lado. Deitou-se no sofá, arrasada. Escrito por (°°) às 11h30 []
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