Escrito por (°°) às 23h38


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Escrito por (°°) às 10h01


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A CAIXINHA.

Por Gisela Gold

 

No Centro batem quatorze horas. A menina cruza a Rio Branco em direção ao Fórum. Na pasta: o processo e anotações pessoais. No coração: uma vontade louca de acertar.

 

Alcança a esquina recordando os argumentos básicos para a audiência iminente. O sinal se fecha. Os transeuntes começam a sentir um som que se aproxima. É gostosa a sensação. O sinal fecha. A curiosidade atiça a moça que permanece inerte. O mistério é desvendado: uma caixa de som que sopra algo bem familiar àqueles tímpanos femininos.

 

Os olhos da moça fitam incansavelmente o que está sobre o caminhão: uma enorme caixinha de músicas infantis de onde brota sensivelmente uma bailarina que roda, roda, roda e roda... fazendo piruetas naquela mente.

 

Por um momento único aqueles pés sentiram um suor antigo, uma necessidade de se elevarem, saltitarem sem ao chão ferir. Aquele calorzinho ia cavalgando docemente aquelas formas que hoje curvavam-se às alamedas áridas e imperfeitas do centro da cidade.

 

A vida daqueles pés que saltavam até alcançar o céu como um cavalo feroz foram trocadas por scarpins. A leveza dos braços que faziam coreografias e brincavam com o ar foi contida pela marcha dos que labutam naquelas proximidades. O olhar perdido naquela caixinha de música esfriou-se ao fitar os ponteiros do relógio na Avenida Central. O desejo de quem pedia por alguns segundos para dançar naquela caixinha buscava uma razão de ser no mundo do horário comercial.

 

A moça buscava as leis sim. Mas naquele pedaço de minuto a sujeita buscava uma única lei: aquela que lhe explicasse porque raios tivera que abandonar aquela caixa. As cobranças e a razão impediam agressivamente que a moça arranca-se os sapatos e botasse as tão sonhadas sapatilhas. Um lugar que sempre foi seu. Já foi sim. Foi já.

 

Sinal verde. O sol incomoda a vista da moça que volta a olhar pra frente. Fórum.  As solas sentem as escadas que em nada se parecem com o palco. A blusa mancha de sal de lágrima. Chegara a hora de usar a lei certa. E alguém pode lhe dizer qual é a lei certa?

 

giselagold@terra.com.br

www.giselagold.wordpress.com

Escrito por (°°) às 00h48


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