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Beijo na chuva. Por Leonardo R. G. de Oliveira Infelizmente não consigo ser original e controlar os meus impulsos ao mesmo tempo. Foi no impulso que eu fui lá e falei tudo. No meio da rua mesmo. Falei tanta besteira que nem acredito. De três palavras que eu projetava com a boca pelo menos uma era um atestado completo de desequilíbrio mental agudo. Ela ouviu tudo horrorizada e no final eu percebi o quanto eu era ridículo. Fui embora. E para completar a cena começou a chover. Na chuva, completamente sem guarda-chuva e sozinho, fechei os olhos e abri os braços como se fosse finalmente dar meu abraço de amor reprimido há minutos atrás, mas antes que pudesse conclui-lo em pensamento, a chuva me roubou um longo beijo molhado e gelado. Encharcado até a medula óssea , senti toda a minha insegurança indo embora, senti-me completo e completamente livre, sem nenhum indício de ressentimento pelo meu coração recém despedaçado. Como se estivesse no útero de uma Terra que me amava: amei de volta. Quando abri os olhos me percebi ali, sem camisa, com os braços abertos e o cabelo molhado, recebendo os olhares sedutores das senhoras e das garotas que saiam da escola e que concerteza devem ter me confundido com um poeta. Escrito por (°°) às 00h03 []
“Olha pontaria Soldado Silva!”. Por Fernando Coelho Caído aqui no chão eu miro o céu azul. No momento é o que me resta a fazer. O corpo dói e a cabeça está confusa demais para eu me levantar. O meu rosto deve estar roxo. Do lado direito dói mais. Não ponho a mão com medo do estrago que tenham feito, não quero sentir meus ossos quebrados, me basta a dor. Olhos e região ainda ardem por causa do spray de pimenta. Quem fez isso comigo? Foi a sociedade! A classe dominante (empresários, banqueiros, etc) como mandante da agressão e a classe dominada (trabalhadores) como cúmplice passiva. Meus amigos estudantes fizeram o possível. A maioria deles deve estar jogada no chão como eu. Alguns devem estar apanhando um pouco mais na delegacia, aos moldes da tortura militar das décadas de 60 e 70. E viva a nova velha ditadura! Não podemos mais protestar nem por pequenas causas. É verdade que a classe dominante nunca saiu do poder, por que as coisas as coisas haveriam de mudar? Aquele operário lá no alto não vai fazer nada por nós. Se quisesse fazer, não conseguiria ou nem estaria lá. A democracia é uma farsa burguesa porra! A coisa tá muito confusa é? Olha só, quem socialmente me agrediu foi uma classe toda, a dominante, mas o cara que me enfiou porrada foi um Zé Ruela com eu e você, que só se diferencia de nós por causa do uniforme que usa e das armas que tem na mão. “Silva”, li o nome no peito dele antes da arma disparar. - Soldadinho de chumbo, ruim de pontaria! Erra o alvo a cada vez que atira! Guardinha de merda, não sabe nem mirar para o lado certo! Lanço ao vento minhas últimas palavras. Escrito por (°°) às 00h12 []
O CACHORRO, O CARRO, O MENINO. Por Gilbert Daniel O cachorro latiu para o carro que passava buzinando. O motorista gritou algo para o cachorro que correu, latiu e voltou quando o carro virou na esquina. Em seguida, um barulho de pneus freando, buzinas, gritos. Começou a juntar gente na direção de onde o carro virara. O cachorro foi atrás. Logo voltaram, todos aos gritos, os latidos do cão; eles traziam o corpo de um menino, atropelado pelo carro do motorista que havia gritado com o cachorro que latia. O menino estava morto. O menino entrou na frente do carro que passava buzinando. O motorista desviou bruscamente e gritou com o menino que, ainda assim, continuou gritando e correndo atrás do carro, o motorista xingava o menino. O carro virou a esquina deixando o menino que agora voltava. Em seguida, barulho de pneus, buzinas, latidos. Começou a juntar gente na direção de onde o carro virara. O menino foi junto e virou a esquina. Logo voltaram trazendo um cachorro nos braços, atropelado pelo carro do motorista que havia brigado com aquele menino que corria. Voltavam pela rua, na direção contrária do carro que havia passado. O menino gritava. O cachorro estava morto. Escrito por (°°) às 00h08 []
Escrito por (°°) às 00h29 []
Trânsito Intenso. Por Carina Morgado O trânsito chiava. Eu andava pelas ruas rapidamente, o envelope na mão, as pessoas caminhando no fluxo da calçada; na verdade, eu via apenas elas. Para lá e para cá. Os carros, de tanto calor e pressa, eram vultos; e eu mergulhado naquela camisa do inferno, azul-marinho, como se azul fosse uma cor que salvasse alguém. Um prédio, mais um prédio, mais um prédio. Marrom, cinza, preto, creme. Tinha deixado minha bicicleta há dois quarteirões, pois o trânsito dali era tão intenso, de carro, de motos, de crianças sujas, de pessoas de terno ou sacolas; um homem de bicicleta jamais se arriscaria. Pisei para atravessar mais uma rua larga; apenas eu deste lado. Fiquei contando as listras brancas no chão e, depois, observando os homens do outro lado, de terno e mochila; a moda do centro da cidade. Que calor, quanta gente aqui sofre menos que eu na vida. Elas atravessavam meu caminho em grupos, paredes de gente impensante, era de propósito, eu juro que só poderia ser. Eram mamutes em baixa estatura, em manada, e eu suava mais que um porco e o sinal estava fechado para os carros, e as pessoas não me deixavam ir adiante com seus ombros interferindo na rota do meu corpo esguio; eu andava e não chegava. Com os desvios que meu corpo delgado podia fazer, comecei a olhar-lhes os olhos, para ver se percebiam que havia um sujeito ali que não estava gostando de atravessar aquela rua, mas que ia conseguir, que diabos. Porém, os únicos seres a desafiarem minha destreza e encararem meus olhos gélidos e tensos foram as crianças, tanto as limpas que eram levadas pela mão, quanto as sujas que carregavam garrafinhas. Esse envelope tem que ser entregue daqui a cinco minutos. Daria tempo. Eu dava um passo de cada vez, já; ainda hesitando muito antes de fazê-lo. Passo, parada. Para não esbarrar no turbilhão de corpos. Cada um mais brilhante que o outro, dourados como o frango na propaganda da Sadia, o suor em pingos pela testa e pelos decotes esticados para baixo. As gordas com rodelas molhadas debaixo dos braços, os homens de terno e mochilas que só podiam conter gelo, andando apressados, contra mim. Cada um na sua rota individual, todos contra o antígeno que se apresentava; um passo, mais outro. Uma mulher loira, com cara de secretária e um coque passou distante de mim, mas eu a vi. Alguém esbarrou fortemente no meu braço direito; olhei pro seu batom vermelho e caloroso como a tarde, que foi ficando cinza, cinza, como uma tevê sem contraste. Vi o meu envelope no chão, a um metro de distância, logo atrás. Voltei-me depressa, o tempo para atravessar já ia. Poucas pessoas até eu poder ver quantas listras me faltavam. Eu já quase alcançava o final da debandada, mas era já tudo quase sem cor. Girei sobre meu pé direito; caí sobre as cinzas quentes do dia. Não havia mais gente. As listras sumiram. O sinal abriu. Escrito por (°°) às 15h58 []
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