Escrito por (°°) às 21h37


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As frases de impacto não devem estar sempre ao final.

Por Paulo Vitor Grossi

 

Feixe, lapsos, memória...

Um processo em andamento, e, ela na rua.

O homem, com ou sem seus traumas infantis, a ataca.

Violência!

Um grito: – Seu Jesus!

 

Há um bichinho dentro dele dizendo para fazer isso.

Feche-a, lapsos, memória...

Ela diz: – Sua mãe lhe fez o que? Teu pai abusou de ti?

 

Deve haver um porquê. Alguém ali pediu pra ser mártir? E se fosse minha namorada? (Mais algumas frases pra dar a entender o quanto esse crime é abominável?).

 

Ele diz: – Eu só quero te amar.

Ela diz: – Não tem desculpas. Quem é seu Jesus? Onde ele está?

Uma pessoa diz: – Quem é? Seu Jesus?

Ele: – Ninguém nunca me amou como eu queria, com esse meu jeito. Meu nome é Jesus.

As pessoas da rua dizem: – Réquiem! Réquiem!

Ele diz depois de uma pausa: – Sim... Réquiem! Eu aceito. Quero ser morto. Eu me odeio, sou um animal.

Ela: – Eu te odeio! Seu imbecil!

Ele: – Adquiri consciência, desculpe me.

Ela: – Não, não – e chora.

A população: – Réu, réu, mais um réu.

Ela: – Não vou te absolver, ainda assim você é um monstro. Desculpas falsas não me enganam.

Por fim, ele fala pela última vez: – Sim, menti. Fui eu – e é morto pelo povo que acabou de acordar de mau humor por ter despertado no meio da madrugada com os gritos da menina Ela.

pvgno2@gmail.com

Escrito por (°°) às 00h12


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O sorriso de Domingos.

Por Francisco Cota

 

Domingos veio de Minas. Camisa furada de deputado estadual e calça jeans com os fundilhos costurados. No Rio de Janeiro, o pedreiro travestiu-se de auxiliar de escritório. Em vez de virar laje, ele agora orgulhosamente anota recados, tira fotocópias, entrega documentos e enfrenta filas de bancos. Sim, Domingos também é boy. Certo dia, foi ao Barra Shopping entregar papéis pardo e teve o dia mais feliz de sua vida.

Nunca tinha entrado em um shopping antes e percebeu que na porta não havia maçanetas. Até que uma menina passou por ele e as portas se abriram sem abracadabra. Ele foi no embalo e se deparou com um clima de montanha que o fez lembrar da sua terra. Foi perambulando pelos corredores à procura das lojas onde deveria entregar os envelopes. Duas adolescentes passam por ele. A da esquerda bem magrinha, estilo modelinho, com uma bundinha pequena mas um com andar lascivo e provocante. A da direita no estilo cavala, peito estufado explodindo no acintoso decote. Depois de trazer seu pescoço à posição de origem, Domingos procura controlar-se pensando na namoradinha que deixou em sua cidade natal, com seus poucos dentes na boca, os cabelos desgrenhados e o vestido de viscose estampado.

Depois de dez minutos vagando sem norte, finalmente ele encontra um balcão de informações, onde uma atendente de cabelos presos e nuca descoberta, metida em um uniforme que valorizava a cintura fina e o quadril largo o informa o caminho até a primeira loja. Quando enfim conseguiu desviar os olhos e parar de imaginar um beijo na boca da atendente, Domingos agradeceu e seguiu até a escada rolante mais próxima. Antes de tomar coragem de embarcar na aventura de subir sem fazer esforço, Domingos aprecia um par de coxas debaixo de um palmo de saia deslizando escada abaixo. No andar superior, uma alta loira de olhos azuis beija adolescentemente um velho repleto de ouro por todo o corpo. Domingos deixa escapar um “minha nossa senhora”.

Olhando as vitrines em busca da loja desejada, ele vê alguns tênis que valem três meses de seu salário. Vê televisores que medem três vezes o seu. Vê mulheres com rabos três vezes maiores que os de sua menina. Calças justas. Cintura baixa. Piercings nos umbiguinhos de fora. Coladinhas. Os sexos estufados, convidativos, suculentos. Diferentes cores, sabores, texturas, tudo ao alcance do olhar e longe do pênis. Todas parecem tão safadas, ousadas e ao mesmo tempo tão frias, indiferentes. Seus olhares passam longe, como se atravessassem Domingos.

Quando finalmente chega à primeira loja, a atendente desfila seu vestidinho de pano leve e vem em sua direção com o sorriso aberto:

- Oi gato, posso te ajudar?

Escrito por (°°) às 00h19


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cont.

Com o pau duro, Domingos diz que precisava apenas entregar alguns documentos à dona. Com a cara fechada, a moça aponta o balcão. Domingos entrega o papel pardo e corre para o banheiro. Ele precisa externar sua excitação, dor e desespero. Chegando ao banheiro, o caipira observa entrar na porta do banheiro feminino duas ninfetas colegiais com os uniformes propositalmente encurtados e, lá dentro, uma mulher de seus trinta e poucos anos ajeita o sutiã e observa o decote. Outra, de seus vinte e cinco aninhos, vira de costas para olhar a bunda no espelho. Ali mesmo Domingos começa a masturbar-se. Um segurança o avista e repreende o matuto. Envergonhado, ele sai correndo pelos corredores. Continua vendo mulheres sensacionais. Loirinhas, ruivinhas, moreninhas, poucas negras, o que ele lamenta. Nenhuma olha para ele. Todas encerradas em seu mundo próprio. Domingos passa em uma loja e vê mais de trinta televisores sintonizados em um show de Axé. Os shorts de lycra minúsculos, as carnes trêmulas, tenras, suadas. Outro grupo de televisores tela plana passam um programa que mostra relações sexuais no mundo animal. Um leão cravando na leoa. Um elefante explodindo a aliá. Um chipanzé bufando no cangote de sua amada...

Na cabeça de Domingos, uma palavra o atormenta, asfixia. A piroca lateja, incomoda. Vaginas ambulantes em cima de saltos caramelo não param de passar. De todos os cantos ele vê surgirem pares de peitos. Dentro de todas as lojas, vindo de todas as partes, pra qualquer lugar que ele olhe, haverá um umbiguinho de fora esperando ser lambido. Ele corre. Não é mais um homem. È um gorila vazando esperma. Sobe no corrimão de um mezanino que dá vista para a praça de alimentação no andar de baixo. Com os braços para o alto, Domingos enche os pulmões de ar e deixa a palavra que tanto o martelava fluir sangrando suas cordas vocais:

 

- BUUUUUUUUCEEEEEEEEETAAAAAAAAAA!!!!!

 

Lá embaixo, velhas engasgam com a comida e menininhas riem. Domingos rasga sua blusa, berra e tira a calça, deixando o pau duro livre. Ele agora sai correndo, cambaleando, suando. Ele está tenso e procura sua presa. Dentro de uma loja, uma loira de vestidinho curto, coxas grossas, decote violento e brincos de argola dourados gigantescos, abaixa para pegar a blusinha de quinhentos reais que deixou cair no chão. Com os dentes semicerrados, Domingos trota em direção à fêmea e levanta o vestido o suficiente para poder arriar a calcinha vermelha até o tornozelo. A vítima tenta evitar, mas Domingos empurra para dentro seu membro e, segurando as duas mãos da mulher, penetra veloz e violentamente, a fim de gozar o mais rápido possível. Fode, fode, fode, fode. Segundos antes dos seguranças surgirem atendendo os chamados, ele urra satisfeito, colonizando o íntimo da mulher.

Com sua bandeira cravada, ele dispara nu e sorridente. Desliza sobre o piso reluzente do shopping, exibindo seu falo flácido, saciado. Ele gargalha feliz. Berra alto. Grita. Urra. Enfim é alcançado. Os cacetetes fazem bastante estrago. Ele sorri. Os socos derramam sangue. Ele sorri. A gravata faz o mundo escurecer. Ele sorri. E fim.

 

chicomonolito@ig.com.br 

Escrito por (°°) às 00h18


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Sobre homens e mulheres.

Por Fernando Coelho

 

De fato, na nossa sociedade,

os homens serão sempre meninos

e as meninas,

essas já nascem mulheres.

 

 

http://elconejomuyloco.zip.net/

Escrito por (°°) às 00h21


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Quanto a publicar, basta escolher um texto que você queira externar e mandar para emailzerohum@gmail.com

O.K?

Aguardamos.

 

 

Vendo estrelas.

Por Gisela Gold

 

Quando ia ao Planetário e ficava observando a constelação artificial cheia de estrelas, naquele espaço celeste que o homem tentou imitar de Deus, nunca poderia imaginar que um dia meu olhos poderiam encher-se delas ao avistarem pessoas em esquinas fazendo sinal verde para o meu coração. Recordo o recorde de disparadas e pontadas cardíacas fazendo crochê com as mãos úmidas e garganta seca ao saber por um bilhete no meio da aula que um garoto me esperaria em tal lugar no pátio na hora do recreio. A estrelinha que a "tia" de Português botava nas melhores redações eu pegava emprestada para viver meus encantos nos cantos da vida.

 

Na adolescência, então, com o primeiro verso copiado, a primeira rosa recebida, a primeira cola de lábios no meio do filme da tarde, o beijo rápido seguido do tchau dele que corre atrás da bola na gincana entre turmas, o primeiro milkshake com fritas pago pelo namorado, tudo cai como tempero ideal para a moqueca de estrelas nos olhos. Acontecimentos de minutos ganham prazo de validade de horas, dias, meses e lugar cativo com estrelinhas adesivadas em diários super secretos.

 

A Estrela que fazia os brinquedos para a gente passa a nos fazer de brinquedos. A cabeça não pensa em outra coisa senão nos momentos em que passamos juntos dos xerifes que tem nossas estrelas cravadas no peito. Tudo parece que não passa, como cena de camera lenta. Tem gente alugando a beleza da estrela do mar e enfeitiçando a gente. Que me perdoe a tecnologia, mas nenhum telescópio diminue a distância entre estrelas como fazem dois olhos apaixonados. A íris dos nossos olhos perde a cor e ganha uma foto.

 

Pra não dizer que encanto não rima com canto, a estrela anda de walkman. Todo feitiço tem sua trilha sonora. O rewind do micro-system quase pifa. "Tem que ser aquela, só mais uma vez, aquela!"

 

Agora encanto tem seu lado dor de barriga: vem e passa. Horrível saber que podemos cumprimentar o ex-xerife, ex-dono da nossa estrela com um simples aceno ou um aperto de mão. Daí a gente descobre que a estrela pode ser fria, de metal.

 

Mas, em matéria de encantos, a tal experiência, ser "velha cansada de guerra", é papo pra boi dormir. Quem está vivo nunca cansa de se encantar ou ser cantado em verso ou com boa prosa. A coleção de encantos faz muito bem pra pele da alma, sem contra-indicações e com efeitos colaterais de altíssimo nível.

Escrito por (°°) às 00h20


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Entrevista com Francisco Cota, criador da personagem (marginal) "Larom", o defensor da moral, que é a própria encarnação dos "bons valores da sociedade contra vermes de todo tipo. E nesta tarefa nem seu arqui-inimigo PÓS-MODERNINHO poderá impedir o justiçamento moral daqueles que merecem!".

 

Parte 1

 

zerohum: Básico, ou pra começo de conversa: como começou?

Francisco Cota: Começou em Janeiro de 2005, quando eu estava desempregado, desiludido, coçando compulsivamente em casa. Acho que o Larom foi uma forma que encontrei de passar o tempo e me divertir agulhando quem achava que merecia ser agulhado. O Rafael, um amigo meu da faculdade, gostou das histórias do blog e topou desenhá-lo. Depois outro, o Rogério, também curtiu e desenhou o segundo episódio. A idéia era, e ainda é, deixar o espaço aberto para qualquer desenhista que quisesse mandar ver e tocar o terror. 

 

zerohum: O que é ou "por que?" Larom?

Francisco Cota: É simplesmente a palavra "moral" ao contrário. Dá pra perceber nas histórias que há sempre algum tipo de lição de moral. Mas não do tipo He-Man. Os métodos geralmente são grosseiros, não civilizados. Larom não é um modelo, um ícone. Também não chega a ser um anti-herói. Na verdade não sei que diabo ele é. Enfim, acho mais divertido e mais sincero assim. Não tenho compromisso com o que é politicamente correto, acho que essa é a onda! :)

 

zerohum: Fale algo do processo criativo e da distribuição "manual" das aventuras do Larom.

Francisco Cota: As histórias geralmente surgem a partir do ódio a determinada postura, discurso ou personagem. Às vezes faço pesquisas, outras vezes saio escrevendo da cabeça, outras vezes relato algo que tenha acontecido comigo ou com alguém próximo. Não tem muito método. O lance dos episódios seguirem quase a mesma fórmula ajuda muito. Ultimamente, entretanto, tenho variado um pouco o estilo porque algumas pessoas consideravam o texto muito "gorduroso", cheio de adjetivos e tal. Outras gostam exatamente por isso. Enfim, é aquela história dos gregos e dos troianos. Quanto à distribuição, acho que foi uma mistura de falta de grana com a nostalgia do fanzine!

Escrito por (°°) às 22h09


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Parte 2

 

zerohum: Ainda da distribuição... Por que na rua?

Francisco Cota: Bem, escolhemos a rua e mais especificamente a maratona de cinema do Odeon BR, porque era um lugar onde se reunia uma quantidade considerável de pessoas, a maioria jovens que curtem a chamada "cultura alternativa" (alguns até alvos potenciais do Larom) e que achávamos que poderiam curtir ou odiar as histórias enquanto esperavam na longa fila de entrada. Por ser uma galera que se esbarra sempre pelas poucas opções de lazer dessa natureza, achávamos que a semente do boca-a-boca ia vingar melhor por lá. Acho que não funcionou muito, mas enfim. ;)

 

zerohum: Na sua opinião, como é o mercado editorial carioca (ou brasileiro), qual a verdadeira realidade e qual a importância da distribuição gratuita de seu trabalho?

Francisco Cota: Pergunta dura essa. Eu não seria capaz de fazer uma análise muito reveladora do mercado editorial carioca, quanto mais do brasileiro. Poderia simplesmente repetir aqui o discurso amargurado de que não há espaço para novos autores e novas idéias, dizer que os figurões só valorizam o que é gringo etc. É claro que isso é verdade, mas penso que grande parcela da culpa é nossa, leitores brasileiros, que não produzimos ou não buscamos material de qualidade aqui. Sem consumidores, não há indústria cultural que se sustente. Talvez possamos melhorar as coisas procurando e consumindo bons autores nacionais, como Lourenço Mutarelli, por exemplo, em vez de ficar reclamando que nas bancas só vemos mais do mesmo. 

 

zerohum: Você sabe como se inseriu e/ou como surgiu esse lance dos trabalhos em  xerox, da abordagem ao transeunte e do teor marginal meio que imposto aos artistas jovens e desconhecidos?

Francisco Cota: Cara, não faço a menor idéia. Mas acho que é uma bela sacada pra quem tá começando e é duro! :)

 

zerohum: Pra finalizar e pra quem ainda não conhece ou quer conhecer: quem é Francisco Cota? O que faz? E quais seus planos, anseios, projetos futuros, blábláblá, blábláblábláá?...

Francisco Cota: Sou carioca, tenho 25 anos e sou formado em História pela UERJ, mas não exerço a profissão. No momento trabalho como revisor de texto e pego onda sempre que posso antes do trabalho pra agüentar o dia. Toco numa banda também, o Jess Saes, cujas músicas a galera pode conferir no www.tramavirtual.com.br. Gostaria de no futuro dar aulas, talvez escrever pra um jornal, ou escrever livros de contos, sei lá. E já que o assunto é Larom, planejo quem sabe entrar em um curso de história em quadrinhos, ou colar com uma galera do ramo e, quem sabe, ver o vingador moral em uma revista, ou sei lá! Enfim, agradeço a entrevista e aproveito para repreender às delongas deste escriba com um pescotapa disciplinar fechando com o seguinte pronunciamento:

- LAROM!

Escrito por (°°) às 22h09


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